terça-feira, 6 de junho de 2017

Por que as pessoas morrem?



Mais de 1,3 milhão de pessoas morrem no Brasil todo ano. A grande maioria de morte morrida, claro, mas há os de morte matada também. Em 2015, foram 59.080 homicídios, segundo informações do Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicado na última segunda-feira (05/jun).

Os dados são de barbárie!

Principalmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde há mais de 35 homicídios por 100 mil habitantes, o valor é superior a de países em guerra. E quem mais sofre com esse genocídio é a população jovem e negra: entre 2005 e 2015, mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil; de cada 100 pessoas que sofrem homicídio, 71 são negras!

É muita coisa!



Além dos homicídios, morre-se muito no Brasil por causa de acidentes de trânsito. Foram mais de 39,5 mil mortes somente em 2015. A maioria dessas mortes está, em termos absolutos, no Nordeste e Sudeste, mas em termos relativos o Centro-Oeste é onde há mais mortes no trânsito por habitante


Além dos números surreais de mortes por homicídio e no trânsito, há muitas mortes no Brasil por questões de saúde. Por complicações cardiovasculares e respiratórias, somadas, são mais algumas centenas de milhares todo ano no Brasil.

Todos esses dados podem ser visualizados através do Datasus, mantido pelo Ministério da Saúde. Não é muito simples nem muito intuitivo chegar aos dados, mas com bastante persistência e usando o Serviço Eletrônico de Informação ao Cidadão (E-SIC) dá pra obter uma infinidade de números sobre mortes no país.

Pra quem quer informações um pouco mais fáceis de manipular e comparáveis com outros países, o Institute for Healt Metrics and Evaluation (IHME) mantém um portal com informações bem abrangentes.


Sobre o Brasil, é possível ver, por exemplo, o ranking de causas de mortes no país e o ranking por causas prematuras em http://www.healthdata.org/brazil. Um evolutivo, por causa de morte, por país, por ano, por idade, por sexo, e por qualquer outra variável que vier à cabeça, é possível achar em: https://vizhub.healthdata.org/cod/. Os mesmos dados em formato de tabela ainda podem ser baixados em: http://ghdx.healthdata.org/gbd-results-tool.

Nesses links, é possível encontrar ainda dados de outros países. Mas só para China e Estados Unidos você encontra já pronto mapas por município com as taxas de mortalidade.

Nos Estados Unidos, o que tem saltado aos olhos de muita gente são as mortes por uso de drogas à base de opiáceos (à base de ópio)! Muitas vezes, esses opiáceos são analgésicos prescritos por médicos. No geral, essa “epidemia” de overdoses já ultrapassou a de HIV e de mortes por armas de fogo dos anos 1990’s e da de acidentes de trânsito dos anos 1970’s.


Em um artigo de dois pesquisadores da Universidade de Princeton pode-se observar como essas mortes por desespero – drogas, álcool e suicídio – estão crescendo nos Estados Unidos, principalmente entre a população branca de meia-idade, a mais afetada também pelo desemprego e pela crise econômica de 2008. Em outro estudo, um grupo de pesquisadores das universidades de Indiana e Virginia tentou identificar como a taxa de desemprego pode afetar o uso e as mortes por overdose de drogas.

Não sei pra vocês, mas pra mim é bastante sintomático que um país com políticas sociais do tipo liberal sofra desse tipo de epidemia muito mais que os países europeus, de políticas sociais mais próximas ligadas à social-democracia. Um artigo de dois pesquisadores holandeses da Universidade de Amsterdam estuda justamente essa possível ameaça aos europeus frente aos dados dos Estados Unidos. 


Bem, países diferentes têm “epidemias” de mortes diferentes, mas todo o mundo está sujeito a falácias e políticas públicas equivocadas. Se no Brasil tenta-se coibir os homicídios com mais aprisionamentos, agravando a guerra entre policiais militares e jovens de periferia, a guerra contra as drogas também pode ser um antídoto tão ineficaz quanto políticas militarizantes para homicídios. Vejam, as mortes não naturais, como as por homicídios, suicídios e overdoses têm mais a ver com razões sociais que de saúde ou de segurança pública! Quando um político decretar guerra contra as drogas ou guerra contra bandidos, olhe bem para os dados e não se deixe levar por nenhuma charlatanice!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vale a pena ser moderado? - As eleições francesas



No fim dos anos 1990’s, o então primeiro-ministro britânico Tony Blair (Partido Trabalhista) liderou uma série de reuniões com figuras como Bill Clinton (EUA), Fernando Henrique Cardoso (Brasil) e Gerhard Schröder (Alemanha), em um movimento que ficou conhecido como Terceira Via. A ideia era revisar, atualizar e discutir a social democracia e criar um novo paradigma hegemônico mundial, pós-neoliberarismo, de Margaret Thatcher (Reino Unido) e Ronald Reagan (Estados Unidos), pós-Consenso de Washington e pós-queda do Muro de Berlim. O movimento tinha o sociólogo Anthony Giddens como seu principal intelectual e rejeitava tanto o socialismo quanto o liberalismo. Em resumo, a Terceira Via era uma espécie de releitura do socioliberalismo ou liberalismo social do início do século XX, que defende crescimento econômico, empreendedorismo e liberdades econômicas mas também é a favor de que o Estado tenha um papel importante em garantir justiça social.

A Terceira Via como movimento não produziu muito, mas, de todo modo, Blair, FHC, Clinton e Schröder, todos de grandes (e tradicionais) partidos em seus países, foram, em alguma medida, expressão de um mundo que tentava superar a guerra-fria e a polarização socialismo x liberalismo. No fim, esses políticos foram consequência de uma tendência que fez com que os partidos tradicionais se movimentassem em direção ao centro do espectro ideológico para ampliar seu eleitorado[1]. A ideia de Terceira Via não durou muito, mas parecia que esse movimento em direção ao centro seria duradouro e que posições centristas é que teriam maior possibilidade de sucesso eleitoral. 

Nova Política
Após a crise econômica mundial de 2008, a crise de representação das democracias ocidentais se agravou[2]. Novos partidos e novas lideranças políticas surgiram pelo mundo rejeitando a política tradicional. O movimento Democracia Real Ya, da Espanha, também ajudou a repensar a representação política e o modo de participação política dos cidadãos. Com isso, há novos atores reivindicando o "novo" na política: à esquerda, essa nova política tem se apoiado em uma maior participação direta do cidadão e em movimentos sociais mais horizontais, em contraponto aos sindicatos tradicionais; à direita, parece que a nova política também rejeita a figura do político tradicional, que faz carreira e aceita as regras do partido, mas, além disso, os políticos emergentes na direita têm revisitado o populismo, tal qual o cientista político americano Jan-Werner Müller define o termo:  “antipluralismo, isto é, a negação da legitimidade aos adversários político os ou de minorias políticas”.

E no centro? Há novidade no centro? 

Em Marcha
A eleição de Emmanuel Macron, na França, é, até agora, a maior expressão do centro na política atual. Vejamos: Macron foi secretário adjunto e ministro durante quase todo o mandato do socialista François Hollande, a partir de 2012, mas aos menos desde 2009 já vinha mostrando sua contrariedade em relação aos rumos do PS francês. Como centrista, Macron fundou em 2016 o seu próprio partido, o En Marché! , com uma plataforma mais próxima ao socioliberalismo: Macron defendeu ao longo da campanha cumprir a meta de 3% de déficit orçamentário (o mais rigoroso entre os candidatos), defendeu a redução de impostos e uma flexibilização das leis trabalhistas mas, ao mesmo tempo, defende, em alguma medida, um modelo sueco de desenvolvimento na França, além de liberdade individuais, como uma maior flexibilização do uso da maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Já vi gente comparando Macron com o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau (Partido Liberal) e até com Barack Obama (Democrata), mas até pela estrutura partidária nova e pela origem na esquerda, acho mais viável comparar o En Marché! com o Ciudadanos, da Espanha. 

Eleições indignadas
E como Macron, um centrista assumido, conseguiu se eleger em tempos de bolhas ideológicas nas redes sociais? Como, afinal, um discurso moderado teve projeção em uma era de extremos?
Pra tentar entender o sucesso de Macron, primeiro vejamos os resultados das eleições presidenciais francesas nas últimas décadas:


Realmente, não é de hoje que há grande fragmentação do voto nas eleições presidenciais francesas. Em primeiro turno, poucas vezes algum partido superou os 20% do eleitorado (se contarmos também os votos inválidos e abstenções). Porém, essa fragmentação sempre teve os partidos tradicionais como protagonistas e reais competidores. Não à toa, quase todos os segundos turnos foram disputados entre o Partido Socialista, de Lionel Jospin e François Hollande, e Republicanos, de Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy. Mas sempre houve ao menos mais três forças consideráveis nas eleições: a extrema direita, com a Frente Nacional de Jean-Marie e Marine Le Pen; a esquerda, seja com a atual França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, ou com o Novo Partido Anticapitalistas, a Frente de Esquerda, a Liga Comunista Revolucionária ou com o Partido Comunista; além do centro, do En Marché, de Macron, ou da União pela Democracia Francesa (UDF).

O que acredito que seja importante ver com a evolução do voto na França é o reposicionamento dos partidos após a crise econômica de 2008 e de movimentos como o dos Indignados ou o NuitDebout. Desde a eleição de 2007, tanto republicanos como socialistas vêm perdendo eleitores. Primeiro, foram os republicanos, que estavam no poder no ápice da crise. Depois, e de forma mais drástica, foi a queda do Partido Socialista, que não adotou as políticas que se espera de um partido de esquerda. O resultado foi retumbante! De primeiro colocado, os socialistas caíram para a quinta posição na eleição deste ano, enquanto republicanos viram perder a liderança na direita para os extremistas da Frente Nacional.

Quando vemos quem votou em cada um dos candidatos, o quadro fica mais claro:















Mélenchon se saiu melhor em grandes centros urbanos, incluindo Paris, roubando voto do Partido Socialista. Macron também parece ter roubado votos na esquerda, em especial dos mais ricos e com mais escolaridade.

Le Pen cresceu à direita com votos dos mais pobres, dos desempregados e com menos escolaridade, enquanto Fillon teve melhor resultado entre os mais ricos e os mais velhos[3].
O número de abstenções, votos brancos e votos nulos também vêm crescendo desde 2008, mostrando que a crise da representação é mesmo geral e irrestrita nas democracias ocidentais. 


O centro nas eleições de 2018
Se Macron ao centro teve êxito nas eleições francesas, será que há espaço para sucesso do centro nas eleições de 2018 no Brasil? E quem representa esse centro?

Pra mim, esse centro é ocupado hoje por Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, mas suas chances de vitória dependem de uma série de fatores que me parecem pouco prováveis de acontecer. Vejamos:
O partido tradicional da esquerda francesa, o Partido Socialista, chegou para as eleições de 2017 totalmente desacreditado e com um governo de baixíssima aprovação popular, tal qual o PSOE espanhol do então primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero entrou nas eleições de 2011. Na França, o resultado foi uma queda profunda do PS, que perdeu votos tanto para a nova esquerda, de Mélenchon como para o centro de Macron. Na Espanha, a queda do PSOE foi mais gradual. Em 2011, esse movimento pela nova política ainda estava engatinhando. E, hoje, o PSOE ainda disputa a liderança da esquerda espanhola com o Podemos de igual para igual. Já no Brasil o PT também está em queda livre, como mostraram as eleições municipais de 2016,  mas, aqui, Psol ou qualquer outro novo partido ainda não ameaçam a supremacia petista na esquerda. Além disso, Lula desponta como candidato do PT para presidência em 2018. Seria como Felipe González ou François Miterrand disputassem as eleições na Espanha ou na França, respectivamente, após longos (e populares) mandatos entre os anos 1980’s e 1990’s.

Se não bastasse a presença de Lula, presidente nos tempos de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, a Rede Sustentabilidade, tal qual o En Marché! ou o Ciudadanos atraem um eleitorado muito específico. Na verdade, os novos partidos políticos têm tido melhor desempenho entre os eleitores com maior escolaridade. Na França, onde cerca de 30% das pessoas tem Ensino Superior isso pode não ser um empecilho condicionante, mas no Brasil, onde menos de 10% das pessoas tem Ensino Superior, isso pode sim ser decisivo!

Também pesou a favor de Macron a enorme rejeição ao populismo xenófobo de Le Pen. Por mais que a Frente Nacional venha crescendo após a crise de 2008, a rejeição a esse tipo de propostas da extrema-direita encontra uma forte resistência para superar um certo patamar. No Brasil, o similar à Frente Nacional pode ser personificado na figura do deputado federal e pré-candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSC/RJ). Ele também representa a extrema-direita, a xenofobia, além da misoginia e do militarismo. Bolsonaro também vem crescendo nas pesquisas eleitorais e aparece como potencial candidato a ir para o segundo turno. E, para Marina, acredito que o ideal seria mesmo enfrentar Bolsonaro em um eventual segundo turno e não um candidato do PT ou do PSDB. O problema seria chegar lá.

De todo modo, Marina Silva empacou nas pesquisas enquanto João Doria Jr (PSDB) e Lula (PT), além de Bolsonaro, despontam como candidatos mais competitivos.

As eleições de 2016 mostraram  que o PT perdeu muitos votos em comparação a 2012, principalmente nas periferias, mas ao mesmo tempo essas regiões foram onde as abstenções e os votos brancos e nulos mais crescerem. Esse eleitorado, com menos escolaridade, não vem se mostrando um potencial eleitorado dos novos partidos. Me parece que esse tipo de eleitor tende a permanecer sem votar em ninguém. Se apatia eleitoral não estiver tão alta, acho mais provável esse voto nas periferias voltar para o PT ou mesmo, como mostra a eleição francesa, esses eleitores podem se deixar levar pela onda populista de extrema-direita.

Por causa da influência do populismo e seu poder de sobre os menos escolarizados, da forte polarização da sociedade e do modo como as redes sociais ajudam isolar essas posições antagônicas, a esquerda, como mostrou o sociólogo Celso de Rocha de Barros em sua coluna na Folha de S. Paulo,  não há, “no momento, qualquer incentivo para a esquerda moderar seu discurso". Enquanto o centro, com Marina Silva, não consegue gerar repercussão na sociedade por mais vezes que Marina se manifeste nas redes sociais.

Em uma eleição pulverizada, como se mostram as mais recentes eleições, muita coisa pode acontecer, mas ainda acho difícil nos dias de hoje, de extremos ideológicos,  que os partidos e o eleitor se movam em direção ao centro, tal como parecia que iria acontecer na época em que se discutia a Terceira Via.

[1] Pode-se encontrar na Ciência Política diversos autores que identificaram uma guinada ao centro dos principais partidos ao longo do século XX. Otto Kirchheimer foi o primeiro a usar o termo partido catch-all; Angelo Panebianco falou em organização "profissional-eleitoral". Enfim, há nomenclaturas para a profissionalização dos partidos, mas não exatamente para a tentativa do controle do centro, como aconteceu com a Terceira Via para partidos já profissionais e institucionalizados. Hoje, com o crescimento da apatia eleitoral das bolhas ideológicas nas redes sociais, o centro parece ter deixado de ser atraente para os partidos terem êxito eleitoral.
[2] Alguns estudos na Ciência Política vêm mostrando que as pessoas continuam acreditando na democracia como melhor sistema de governo, mas elas se sentem desacreditadas no atual formato de representação política, via partidos políticos e sindicatos, dando preferência à entrada de novos atores ao sistema. Sobre crise da representação, vale a leitura dos textos do cientista político Russel Dalton (bit.ly/1o9RoHI), em especial o artigo Political Support in Advanced Industrial Democracies, disponível em: bit.ly/1KKhElY. É possível também ver indícios dessa crise com os dados de confiança da população norte-americana nos governos: de mais de 70% no fim dos anos 1950s para menos de 20% no governo Obama(a pesquisa completa da Pew Research pode ser vista nas 14 páginas de Beyond Distrust: How Americans View their Government). Também não por coincidência, o número de protestos no mundo vêm aumentando a cada ano.
[3] Os mapas de votação das eleições francesas podem apontar para várias interpretações diferentes. É possível ver, por exemplo, semelhanças nos votos para a esquerda com a França do Império Angevino (séc. XII) ou mesmo com a França de maioria Huguenote (séc. XVII), enquanto a direita se assemelha mais à França do Império Sacro Romano-Germânico (séc. XII) e com a de maioria católica (séc. XVII)Esses mapas praticamente se sobrepõem à divisão de votos hoje, entre esquerda e direita, como em 2012 e 2017.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Distopia na Era dos Extremos



Em fevereiro de 2016, a jornalista Eliane Brum publicou em sua coluna no El País um texto brilhante sobre a impossibilidade da ignorância e da inocência nos dias de hoje. Sob o título Todo inocente é um fdp?, ela ilustra magistralmente sua ideia com o corruptível personagem Cypher, do primeiro filme da trilogia Matrix:
Lembro uma cena do primeiro filme da trilogia Matrix, ícone do final do século 20. Os membros da resistência eram aqueles que, em algum momento, enxergaram que a vida cotidiana era só uma trama, um programa de computador, uma ilusão. A realidade era um deserto em que os rebeldes lutavam contra “as máquinas” num mundo sem beleza ou gosto. Fazia-se ali uma escolha: tomar a pílula azul ou a vermelha. Quem escolhesse a vermelha, deixaria de acreditar no mundo como nos é dado para ver e passaria a ser confrontado com a verdade da condição humana.

Na cena que aqui me interessa recordar, um traidor da resistência negocia os termos de sua rendição enquanto se delicia com um suculento filé. Ele sabe que o filé não existe de fato, que é um programa de computador que o faz ver, sentir o cheiro e o gosto da carne, mas se esbalda. Entregaria sua alma às máquinas em troca de voltar na melhor posição – rico e famoso – ao mundo das ilusões. Delataria os companheiros se a ele fosse devolvida a inocência sobre a realidade do real. Sacrifica a luta, os amigos e a ética em troca de um desejo: voltar a ser cego. Ou voltar a acreditar no filé.

A frase exata, pronunciada enquanto olha para um naco da carne espetada no garfo, é: “Eu sei que esse filé não existe. Sei que, quando o coloco na boca, a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso”. Faz uma pausa: “Depois de nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa”.
A ignorância que Cypher tanto queria, pra mim, explica em parte a distopia que vivemos. Tendo em mente tanto o conceito de alienação marxista quanto o de integrados de Umberto Eco, Cypher, no filme d@s irm@s Wachowsky, é um personagem que procura justamente a alienação para poder consumir e se entreter do modo mais integrado e passivo possível. Quer ser alguém “rico e famoso”.

No entanto, ele, assim como nós, já não tem a escolha entre a pílula azul e a pílula vermelha. Cypher já havia tomado a vermelha. Foi despertado da Matrix para lutar contra as máquinas, mas se arrependeu. O que ele quer mesmo é a ignorância.

No mundo real, o desenvolvimento tecnológico e o aperfeiçoamento das instituições democráticas no mundo ocidental vêm desvendando os meandros da política. Não somos mais ignorantes destes processos, das negociatas, de como se formam os governos e dos acordos para se eleger lideranças[1]. Somos inundados de escândalos de corrupção e de maus feitos por políticos todos os dias pela imprensa e nas redes sociais. Os políticos, por sua vez, já passaram até a reconhecer esse tipo de negociata publicamente, sem pudor.

Talvez o mal-estar do nosso tempo seja o de que já não é possível escolher entre a pílula azul e a vermelha – ou entre continuar cego ou começar a enxergar o que está por trás da trama dos dias. O mal-estar se deve ao fato de que talvez já não exista a pílula azul – ou já não seja mais possível a ilusão, esta que desempenhou um papel estrutural na constituição subjetiva da nossa espécie ao longo dos milênios - trecho extraído de Todo inocente é um fdp?, da jornalista Eliane Brum.

Se antes havia a utopia socialista para fazer frente ou brecar os excessos da democracia liberal, agora não se deslumbra nada que não seja pela via democrática. Afinal, antes um consenso forjado pelas aparências que uma imposição pretensamente revolucionária.

O mundo hoje é menos pobre que há 50 anos, sem dúvida. Mas não é suficientemente menos desigual nem mais acessível. As pessoas continuam com poucas chances de chegar ao poder. Pior, são desencorajadas a fazer. São convencidas que a política não é lugar para gente boa, honesta. Melhor alienar-se.

Após um importante período de globalização e de democratização da informação, a internet também parece hoje um espaço controlado por interações vazias em ambientes devidamente pré-definidos por um grupo (ou por algoritmos) bem seleto. Quando aparecem as denúncias de corrupção ou mesmo propostas transloucadas de novos políticos já estamos anestesiados demais pelo volume incessante de informação inútil de nossa timeline. Melhor buscar no Youtube o último vídeo de standup comedy que viralizou nas redes sociais.

O fato é que não estamos mais desinformados que político x ou y é corrupto ou não. Qual foi o esquema de corrupção e quem se beneficiou dele. Se o político é midiático o suficiente pra “lacrar” nas redes, se ele ou ela fala o que pensa, sem pensar, gerando uma máquina de memes, talvez seja o suficiente para diferenciá-los dos velhos oligarcas políticos.

E quem melhor para representar-nos que nosso próprio Cypher? Alguém rico e famoso capaz de furar os bloqueios impostos pela elite política e vender uma pílula azul reeditada.

É justamente nesse contexto que vamos para o terceiro mês de governo de Donald Trump nos Estados Unidos, ainda sem impeachment nem terceira guerra mundial – Uuuuu!

Trump foi eleito em novembro de 2016 com minoria dos votos populares, mas o suficiente para ter maioria no colegiado que elege o presidente dos Estados Unidos. Seu eleitor pode ser facilmente identificado: a população branca, trabalhadora, especialmente de cidades pequenas e médias, que estavam perdendo seu poder de compra frente à globalização. Essa população via os imigrantes como ameaças a seus postos de trabalhos e os produtos estrangeiros como empecilho à hegemonia americana.

Trump foi melhor entre os eleitores homens, com baixa escolaridade, cristãos, casados, entre os mais velhos e entre ex-militares

A classe trabalhadora branca, ao assistir a seus valores morais serem ridicularizados, sua religião ser considerada primitiva e suas perspectivas econômicas dizimadas, agora descobre que até mesmo o sexo e a raça a que pertencem – na verdade, a própria forma como falam sobre a realidade – são vistos como uma espécie de problema que o país deve tentar superar. Esse é apenas um dos aspectos daquilo que Trump chamou, magistralmente, de metástase do “politicamente correto”. Ou, na verdade, algo que poderia ser mais bem descrito como uma renovada e crescente paixão progressista por igualdade racial e sexual – uma igualdade de resultados, e não a aspiração liberal à mera igualdade de oportunidades.

Grande parte da esquerda passou a ver a classe trabalhadora branca não mais como uma aliada, mas basicamente como um grupo de pessoas preconceituosas, misóginas, racistas e homofóbicas, condenando os que estão muitas vezes nos degraus mais baixos da economia a ficar também no degrau mais baixo da cultura - trecho extraído de Trump e os limites da Democracia,  do jornalista Andrew Sullivan[2].

Também não parece ser possível mostrar evidências, argumentos razoáveis nem dados científicos que façam os eleitores de Trump verem o quão surreal e ineficaz são suas propostas, seja a construção de um muro entre o México e os Estados Unidos ou a proibição da entrada de muçulmanos no país.

Os movimentos de massa, argumenta Hoffer, se distinguem por sua “disposição para o faz de conta, […] sua credulidade e prontidão para tentar o impossível”. Colocamos, então, a pergunta: o que poderia ser mais impossível do que examinar, de uma hora para outra, cada pessoa que chega aos Estados Unidos em busca de indícios de uma possível crença islâmica? O que poderia ser mais faz de conta do que um grande e belo muro, estendendo-se ao longo de toda a fronteira com o México, pago pelo governo mexicano? O que poderia ser mais ingênuo do que acreditar que poderíamos pagar nossa dívida pública por meio de uma guerra global de comércio exterior? Num partido político convencional, e num discurso político racional, tais ideias provocariam riso e seriam excluídas da disputa, pois sua evidente inviabilidade as excluem de qualquer tipo de consideração séria. No entanto, no fervor emocional de um movimento de massas democrático, essas impossibilidades se tornam símbolos da esperança, emblemas de uma nova forma de fazer política. Sua atração consiste justamente na sua inviabilidade - trecho extraído de Trump e os limites da Democracia, do jornalista Andrew Sullivan.

Mais desesperador é saber que a razão não ganha debates, mas as emoções sim[3], e  que chegamos ao ponto em que a realidade é substituída por "fatos alternativos".
E o que mais impulsiona tudo isso é justamente aquilo que os autores da Constituição americana mais temiam na cultura democrática: o sentimento, a emoção e o narcisismo, no lugar da razão, da atenção aos fatos e do espírito de serviço público. Os debates online se tornam pessoais, passionais e insolúveis praticamente no momento em que começam- trecho extraído de Trump e os limites da Democracia,  do jornalista Andrew Sullivan.

Também é verdade que os desmandos de Trump no governo não estão passando 100% ilesos. Já na primeira semana após as eleições, houve protestos por todo Estados Unidos. A Suprema Corte já barrou um dos atos mais polêmicos, a suspensão da entrada de estrangeiros de sete países de maioria muçulmana. E agora a campanha de Trump está sendo investigada por sua relação com a Rússia, o que já custou a queda de Michael Flynn, assessor de Segurança Nacional.

Em tempos de radicalizações, é preocupante perceber que há quem esteja comprando placebo (ou veneno) como se fosse pílula azul. O que se quer é sentir o gosto daquele filé conservador, da fase áurea dos anos 1950s, antes da ascensão da contracultura e do processo de conquista dos direitos civis das minorias, sem serem enquadrados de politicamente incorretos. O conhecimento pra essas pessoas não os libertou, mas os colocou em uma espécie de jaula de ferro (ou sob uma carapuça de aço[4]) que os faz ter nostalgia da ignorância.

Mas e a partir de agora? Continuaremos nos entupindo de pílulas de ilusão? Como iremos lidar com as revelações dos processos políticos? Afinal, seremos incentivados a participar (e melhorar) desses processos ou iremos nos distanciar ainda mais dos espaços de decisão?

Só acho que Keanu Reaves e nossas esperanças messiânicas já estão um pouco velhos para nos salvar de Cypher desta vez!

[1] Não à toa, a confiança da população norte-americana nos governos vem caindo drasticamente, de mais de 70% no fim dos anos 1950s para menos de 20% no governo Obama, (a pesquisa completa da Pew Research pode ser vista nas 14 páginas de Beyond Distrust: How Americans View their Government). Também não por coincidência, o número de protestos no mundo vêm aumentando a cada ano.
[2] Traduzido para o português na edição de junho da revista Piauí, o texto foi originalmente publicado em inglês na edição de maio da New York Magazine: nym.ag/1W23HEp.
[3] Também vale a leitura do artigo Why facts don't change our minds, da jornalista Elizabeth Kolber, da revista The New Yorker. Nele, a autora aborda três livros sobre a negação da razão: TheEnigma of Reason (Hugo Mercier e Dan Sperber - ambos de Harvard University), The Knowledge Illusion: Why We Never Think Alone  (Steven Sloman - Brown University - e Philip Fernbach - University of Colorado) e Denying to the Grave: Why We Ignore theFacts That Will Save Us (Jack Gorman - University of Oxford - e sua filha Sara Gorman).
[4] Max Weber utilizou o termo em alemão “stahlhartes Gehäuse” em Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Na tradução de 1930 de Talcott Parsons para o inglês, passou-se a usar Iron Cage (Jaula de Ferro) para o processo de racionalização ou secularização do mundo sob os paradigmas da ética protestante cristã. Na versão revisada pelo sociólogo brasileira Antônio Flavio Pierucci, de 2004, retomou-se uma tradução mais literal: “carapuça de aço”.